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sábado, 12 de novembro de 2011

Agulha no palheiro: vozes do Brasil

Agulha no palheiro: vozes do Brasil

Há 20 dias, durante uma entrevista para o site francês MicMag fui questionada pelo jornalista Helios a respeito do oceano de novas cantoras brasileiras. Respondi com base em minha trajetória de 15 anos e observação do universo ao meu redor. Carreira artística exige muitos predicados: consciência de seu papel social, disciplina, vocação, conhecimento daquilo que se pretende fazer, paciência, muita paciência, entre tantos outros atributos. E encarar tudo isso não é para todos. Já assisti – como muitos leitores – a ascensão astronômica de cantores (as) que sumiram no mesmo passe de mágica com que surgiram.

Mas, no caldeirão de centenas de vozes brasileiras conheci há pouco uma jovem pérola da Bahia. A talentosa, simpática e delicada Juliana Ribeiro que na minha opinião já nasce grande em personalidade vocal no CD “Amarelo”. De timbre belíssimo e estética musical bem delineada a moça conhece do riscado do samba e suas matrizes no jongo, no lundu – batuque ancestral da senzala, “bisavô do samba” – como ela gosta de explicar nos shows.

Mestranda da pós-graduação em Cultura e Sociedade pela Faculdade de Comunicação e Artes da UFBA (Universidade Federal da Bahia) Juliana está longe de ser uma acadêmica no samba. Ao contrário. Foi o palco que a motivou à pesquisa e todo o balanço de seu canto e compromisso com a canção popular – sabemos – não é matéria que se aprende em escola nenhuma. A não ser a escola da vida, o jeito como você anda, se relaciona. Noel Rosa profetizou há 100 anos em Feitio de Oração “samba não se aprende no colégio”. Juliana sabe disso.

Sua pesquisa acerca da canção brasileira e seus intérpretes pré-década de 50 talvez tenham contribuído para uma cantora faceira, com uma postura lúdica em cena. Juliana deve chegar em breve pelo Sul pois a Bahia é pequena pra ela e o Brasil merece ouvi-la.
Ainda na mira das cantoras há excelentes vozes que andam sustentando, a duras penas, órfãs de qualquer tipo de incentivo financeiro, a boa música deste país.

Uma destas guerreiras está no Rio de Janeiro e chama-se Luiza Dionizio. E aqui falo de uma intérprete de quilate, conhecedora do sentido sagrado do palco, das roças e diferentes manjedouras do samba. E por tudo isso leva seu ofício como reza e agradece sempre à Nossa Senhora da Conceição, de quem é devota. Seu último CD tem a produção e direção musical do excelente Paulão 7 Cordas e foi dedicado a compositores ímpares do cancioneiro nacional como Elton Medeiros, Aldir Blanc, Wanderley Monteiro, Wilson Moreira, Zé Luiz do Império.

Pra quem não a conhece, Luiza Dionizio está às sextas-feiras, quinzenalmente, no bar Carioca da Gema, na Lapa, Rio de Janeiro.

Se for falar das vozes paulistanas tem muita gente: Juliana Amaral, Adriana Godoy, Beth Woolley, Adriana Moreira e tantas outras. Dedicarei este espaço a contar um pouco sobre estas belas e feras nas próximas edições.

Em tempo, Elis Regina em “Querelas do Brasil”, de Aldir Blanc e Mauricio Tapajós, anunciava:

“O Brasil não conhece o Brasil
o Brasil nunca foi ao Brazil”.

Por Fabiana Cozza, colunista do Yahoo! Música

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